Mãe do meu filho que, vez ou outra, chama a vovó de mamã. A entonação é diferente, mas ele chama sim, admito. Mãe solteira. Mãe cansada. Mãe, simplesmente.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
O prédio de tijolinhos
Eu já morei numa água-furtada. Sei que isso é literário demais. Sei que chega a ser quase anacrônico. Mas eu morei sim, é verdade. A casa era improvisada, e tinha tanto charme boêmio e intelectual que eu temia acordar falando em francês, com uma boina na cabeça e cantando alguma canção de Gainsbourg pelas ruas de Montmartre, oops, de Jardim da Penha. Na verdade pensando bem eu não temia nada, fingia que isso aconteceria a qualquer momento. Ou mesmo sonhava em desembocar nos arcos da Lapa e subir pra Santa...
Mas nem tudo era perfeito, a proprietária do imóvel morava no andar de baixo, e se aposentou e automaticamente passou a fazer um apanhado do meu cotidiano, sempre com observações dirigidas à diarista dela, que por sua vez, era a mesma da minha mãe, ou seja: minha vida passou a ser um livro aberto, ou melhor: um blog falado pela Dona Aurora. E claro que a vida que ela contava era muito mais interessante que a minha de fato. E eu passei a sonhar com uma casinha normal, com condomínio, porteiro, elevador e indiferença completa dos vizinhos.
Eis que em minhas buscas pela casa nova achei o prédio de tijolinhos. Apartamentos de um quarto. Com elevador? Nem lembro. Apenas sei que era elegante. Dessa sobriedade ocre. Aqueles tijolos pequenos têm algo de aparente, de pequeno pedaço do todo, de conjunto. E era um prédio com cara de vida normal. De pessoa pouco literária. De gente que trabalha no mesmo emprego anos, mas que mesmo assim, tem certa liberdade de pensamento e de escolha. Mora só, mas tem namorado. Lê de madrugada, mas gosta de macarrão aos domingos. E eu queria ser aquela pessoa.
E agora eu olho esse prédio de tijolinhos quando vou buscar meu filho, e ele significa a minha vida de solteira, meus anseios de uma pessoa só, pronta a ir pra Europa semana que vem, a aceitar um emprego em outro estado, a fumar um cigarro ao escrever, a tomar um vinho com alguém na sala ouvindo alguma banda com muitas sílabas no nome.
Mas ele também quer dizer o ontem, o não inaugurado, de nunca ter amamentado, de não carregar a barriga do futuro, de ter domingos solitários, de (eca) fumar um cigarro, de percorrer com os olhos a casa toda e nela não ter nada fora do lugar, de ter mais condições de liberdade, mas nunca ter tido o amor incondicional. De não apertar aquela coisinha nos braços na hora do pesadelo dele.
Olho com saudade pra esse prédio de tijolinhos, mas olho muito mais com felicidade de não poder mais habitá-lo. Em alguns dias de birra e escaladas de geladeiras e não dormir nem um minuto de manhã e ainda puxar meu cabelo, eu anseio esse predinho. Em dias em que balançamos na pracinha, eu te empurro sentada na areia e ao me alcançar te beijo, eu olho o dito prédio de tijolinhos aparentes com absoluto desdém.
Posso ser assim? Ter saudades de mim sem você enquanto te amo exemplarmente, ter culpas dessa saudade, pensar em quanto sou mais feliz agora, mas de vez em quando, em dias em que ser mãe e solteira e capixaba parecem mais substantivos que adjetivos, confesso que por longos 30 segundos eu corro pro prédio de tijolinho. Mas logo você me chama de volta:
_Mamã, mamã.
E pronto, tudo faz sentido de novo.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Pipoca meio doce e meio salgada
Antes eu tinha medo de dar pipoca. Parecia um alimento tão perigoso. Um dos meus grandes medos dos primeiros dias era o engasgo. E claro que pipoca não estava nos primeiros dias, acho que Francisco só provou pipoca com um ano e 3 meses. Ou seja, há 4 meses atrás. Lá pelos idos de um ano de idade, eu pegava só a parte macia da pipoca, a parte sem milho, bem fofinha, e dava bem pouquinho. A gente tem essa mania, de querer dar só a parte mole da vida pros filhos, temos de nos vigiar pra deixar rolar. A primeira queda, a primeira vez que dizemos não, a primeira pipoca completa, no saquinho, em mãos. E eu comprava a pipoca na porta da creche e pedia metade doce, metade salgada. E comia mais que ele, tá, confesso. Mas ontem ele não gostou da doce, fez um gestual com as mãos, que eu como boa capixaba vou ter de redundar no capixabismo: ele parecia engasturado. E agora eu peço, sabendo o que ele quer: de sal. Toda de sal. Não sei, aliás, sei que é exagero, mas me dá um orgulho de pedir algo que ele escolhe inteiramente. Porque ele exige a pipoca e agora fica claro também o jeito. É como parir vontades. Além de já ter parido uma gente, o que pra mim, ainda é um grande assombro.
domingo, 19 de maio de 2013
Primeiro a gente começa
Eu gostaria de contar uma história de humor refinado e alegria tocante sobre ser mãe. E te conquistar aqui, pra eu me sentir acompanhada. Mas estou de mudança de casa, e entre caixas e medos, eu não estou encontrando lugar pra mim. Eu sou mãe solteira, e nunca sonhei com isso, acho que não faz parte do plano de nenhuma garota, ser mãe solteira. Mas ser mãe sim, e o tempo se encarrega do resto. O tempo e a grande falta de oferta de homens com que você sonha ter um filho. Os desencontros escrevem histórias bem mais reais que os encontros. Os desencontrados escrevem bem mais. O fato é que irei morar com a avó materna de Francisco, que sim, é minha mãe, mas se tornou muito mais a avó materna de Francisco do que uma mãe. E isso me aterroriza, temos uma relação difícil, muito difícil, machucante, entre acusações e dores, e chatices. Tentarei não me estender muito nesses detalhes, e fixar-me na recompensa em ter uma avó por perto (que sim, é muito bom) e na nossa relação com Francisco, usarei esse espaço para registrar, para anotar e para me educar. Porque na verdade, quando a gente educa um filho, educa em primeiro lugar, a nós mesmos.
Hoje pedalamos em direção a uma atividade que seria também pra crianças, e claro, não era. Era um evento de bairro, com bandas alternativas que gritavam demais pra quem só ouve Palavra Cantada. Ficamos irritados, cada um a sua maneira,e em alguns pontos do pedalo de ida e volta, Francisco reclamou. Comecei a criar uma música pra ele e quero guardar ao menos a letra:
Tudo vai ficar bem...
Tudo vai ficar zen...
Tudo vai ficar.
Tudo vai ficar ar.
Tudo vai ficar água.
Tudo vai ficar terra.
Tudo vai cair fogo.
(agora tenho de lembrar e inventar o resto). Abraços e até a próxima.
Hoje pedalamos em direção a uma atividade que seria também pra crianças, e claro, não era. Era um evento de bairro, com bandas alternativas que gritavam demais pra quem só ouve Palavra Cantada. Ficamos irritados, cada um a sua maneira,e em alguns pontos do pedalo de ida e volta, Francisco reclamou. Comecei a criar uma música pra ele e quero guardar ao menos a letra:
Tudo vai ficar bem...
Tudo vai ficar zen...
Tudo vai ficar.
Tudo vai ficar ar.
Tudo vai ficar água.
Tudo vai ficar terra.
Tudo vai cair fogo.
(agora tenho de lembrar e inventar o resto). Abraços e até a próxima.
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